Transplante de Córnea

O Dr. Gustavo Bonfadini esclarece algumas dúvidas sobre a cirurgia de transplante de córnea:

 

1) O que é o Transplante de Córnea?

O Transplante de Córnea é o transplante de órgãos mais realizado no mundo e também o de maior sucesso. Vamos explicar aqui o que é e como funciona essa cirurgia.

O Transplante de Córnea é uma cirurgia que consiste em substituir uma porção da córnea (doente) de um paciente por uma córnea saudável, a fim de melhorar a visão (finalidade óptica) ou corrigir perfurações oculares (transplante tectônico).

 

2) O que é a Córnea? 

A córnea é um tecido transparente que fica na parte da frente do olho. Para entender melhor, imagine um relógio com o vidro arranhado, embaçado… Mesmo que a máquina do relógio esteja funcionando, não vai ser possível ver as horas. É igual à córnea: caso ela esteja “embaçada, arranhada”, mesmo que o resto do olho esteja sadio, a visão vai ficar ruim. Os transplantes permitem que pessoas com alguma deficiência visual por problemas de córnea recuperem a visão.

Durante um transplante de córnea, o botão (ou disco) central da córnea opacificada (embaçada) é trocado por um botão central de uma córnea saudável. Esta cirurgia pode recuperar a visão em pessoas que têm alguma deficiência visual por problemas de córnea.

Portanto, a córnea saudável deve permitir a passagem de luz através dela (deve ser transparente). A perda da transparência da córnea (opacificação) chama-se leucoma corneano, o qual pode prejudicar a visão. Além de ser transparente, a córnea normal apresenta uma curvatura capaz de ajudar na formação da imagem na retina (focar a imagem, melhorando sua nitidez). Assim, alterações na curvatura da córnea também poderão prejudicar a visão.

 

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3) O olho, como um todo, pode ser transplantado?

Não. Somente alguns tecidos oculares, como a Córnea e a Esclera, e as Células-Tronco da córnea, podem ser utilizados com fins terapêuticos.

 

4) Que doenças podem ser corrigidas com o Transplante de Córnea?

O Transplante de Córnea está indicado, obviamente, para algumas doenças da córnea. Muitas pessoas acham que essa cirurgia resolve qualquer doença no olho, mas não é assim. Só as doenças da córnea podem se beneficiar dela. Não existe Transplante de “todo o olho”, ou Transplante de Retina. Diversas doenças podem ser tratadas com o transplante de córnea, dentre as quais podemos mencionar algumas:

 

a) Ceratocone (doença que altera a curvatura corneana, podendo causar opacidades na córnea);

b) Degeneração marginal pelúcida (doença parecida com o Ceratocone e que também altera a curvatura da córnea);

c) Ceratoglobo (formato alterado da córnea, associado com afinamento da mesma);

d) Distrofias corneanas (alterações bilaterais, progressivas que costumam provocar opacidades corneanas), dentre elas podemos citar a mais comum: Distrofia de Fuchs;

e) Ceratopatia Bolhosa (descompensação da córnea, com presença de uma córnea com gutata, edema e diminuição da visão, devido à falência do endotélio da córnea);

f) Córnea guttata e Distrofia de Fuchs (descompensação corneana que pode progredir para ceratopatia bolhosa);

g) Infecções corneanas graves;

h) Leucomas (opacidades corneanas que podem ser originadas por diversas causas, como traumatismos, queimaduras químicas, infecções por herpes e distrofias corneanas, por exemplo);

i) Perfurações oculares.

 

5) Quais são os tipos de transplantes de córnea?

Existem diversos tipos de Transplantes de Córnea, cada qual apresentando vantagens e desvantagens específicas. Inicialmente, podemos dividir os transplantes em dois tipos:

 

A) TRANSPLANTE PENETRANTE

Os Transplantes Penetrantes são aqueles que substituem toda a espessura da córnea, enquanto os transplantes lamelares substituem apenas uma fatia da córnea. Assim, dependendo de cada caso, o médico poderá optar por um tipo ou outro de transplante.

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B) TRANSPLANTE LAMELAR : DALK e FALK.

 

C) TRANSPLANTES ENDOTELIAL DE CÓRNEA: DSEK e DMEK.

 

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D) TRANSPLANTE DE CÉLULAS TRONCO.

 

6) Como é o pós-operatório do Transplante?

A sensação de dor varia de pessoa para pessoa. Tipicamente, há pouca ou nenhuma dor. Quando presente, geralmente, é leve e dura alguns dias, sendo aliviada por analgésicos comuns.

São permitidas atividades normais como escovar os dentes, tomar banho, caminhar, ler e assistir a televisão. Atividades físicas mais intensas podem ser retomadas depois de umas semanas. Deve-se evitar apertar ou esfregar o olho

A visão melhora gradualmente. Frequentemente, a visão torna-se útil dentro de algumas semanas. Porém, em alguns casos, pode levar alguns meses para que se obtenha a melhor visão.

Colírios de corticóide e antibióticos são instilados no olho nos dias após a cirurgia, para prevenir a rejeição e infecção da nova  córnea.

 

7)  Quando e como é feita a retirada dos pontos no transplante de córnea?

 Essa á uma pergunta que os pacientes que fizeram ou vão fazer o transplante sempre questionam. Quem vai decidir quando deve tirar os pontos do Transplante de Córnea é o cirurgião, baseado em critérios como: grau de astigmatismo após a cirurgia, se tem algum ponto frouxo ou com vaso sanguíneo perto (o que pode aumentar o risco de rejeição) entre outros.

Como a Córnea não tem suprimento de sangue (um dos motivos de sua transparência) o transplante cicatriza lentamente. As suturas permanecem no lugar durante três meses a um ano e em alguns casos são mantidas permanentemente. Ocorre cicatrização completa da ferida entre 6 e 12 meses

Os nós da suturas são sepultados (os nós ficam para dentro da córnea doadora), portanto não causam desconforto e o ajuste das suturas ou remoção de suturas, para controle do astigmatismo, são procedimentos simples e indolores.

Na realidade, esses pontos não incomodam e podem ficar no olho por um período grande. Ele só vai ser retirado se tiver motivo para isso. Por isso, não se preocupe em retirar os pontos agora ou não. Deixe seu médico se preocupar com isso.

 

8) Todo Transplante de Córnea precisa de sutura (“dar pontos”)?

 Segundo o Dr. Gustavo Bonfadini, nem sempre. Dependendo da indicação clinica e da técnica cirurgica empregada, pode-se optar por um procedimento cirúrgico sem pontos, o que é avanço significativo para os transplantes de cornea realizados a cinco (05) anos atras.

Isto vai depender do tipo de transplante realizado. Os transplantes penetrantes costumam ser feitos com suturas, o que é popularmente conhecido como “dar pontos”. Já os Transplantes Lamelares podem ser feitos sem a necessidade de pontos, dependendo da técnica cirúrgica utilizada.

Recentemente foi publicado artigo cientifico em uma importante revista da Oftalmologia Mundial (Cornea Journal: Cornea Volume 32, Pages 533–537, Number 4, April 2013), no qual nosso grupo demostrou a eficácia dos primeiros pacientes operados no Brasil com esta técnica cirúrgica inovadora. Nesta técnica chamada de FALK (do inglês Femtosecond Laser–Assisted Sutureless Anterior Lamellar Keratoplasty) o Transplante foi realizado apenas substituindo a porção doente mais superficial da córnea, com o auxílio de um LASER e não mais lâmina de bisturi, como se faz tradicionamente.

Deste modo não foi necessário o uso de sutura (costura com pontos), reduzindo o tempo cirúrgico e de recuperação, diminuindo a chance de rejeição do transplante e reduzindo as chances de complicações relativas as suturas.

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9) Há risco de rejeição de Transplante de Córnea?

Sim. Como em todo transplante de órgão há risco de rejeição. Mas no caso da córnea essa rejeição não representa risco iminente de vida como no transplante de coração ou de rim por exemplo. Muitas vezes é possível controlar essa rejeição com colírios e tratamento sistêmico.

 

10) É necessária alguma compatibilidade do doador com o receptor?

Como a córnea não tem suprimento de sangue, não há necessidade de realizar exames específicos de compatibilidade como HLA ou grupo sanguineo ABO.

 

11) O que é a Lista de Espera para Transplante de Córnea e como ela funciona?

A lista de espera é uma lista única (para uma região ou Estado), a fim de promover uma justa facilidade de acesso ao transplante para todos os pacientes, independente de condições econômicas, evitando favorecimentos. Esta lista funciona respeitando uma ordem cronológica de ingresso (quem entra antes, será atendido primeiro do que quem entra depois).

Recentemente o Programa Estadual de Transplantes (PET), o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO) lançaram o Manual do Paciente de Transplante de Córnea, com a finalidade de aprimorar o Transplante de Córnea no Estado do Rio de Janeiro.

Segundo o Coordenador da Câmara Técnica de Transplante de Córnea do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Gustavo Bonfadini, o Manual do Paciente de Transplante de Córnea fornece ferramentas para que o paciente seja mais pró-ativo na busca de seus direitos e cumprimento de deveres.

“Buscamos fazer um manual com informações em linguagem didática e simples para que todo o paciente inscrito na fila de transplante saiba que pode acompanhar a localização na fila pelo site e ao se aproximar do início [da fila], ele poderá marcar os exames pré-operatórios e tomar as medidas necessárias antes do transplante”, explicou ele.

 

12) Existem casos que são considerados priorização na Lista de Espera?

 Sim, existem casos especiais, nos quais é possível acelerar o Transplante de Córnea. Estes são chamados de casos urgentes. Quando há uma urgência, existem critérios para permitir o acesso mais rápido ao Transplante, como em perfurações oculares e infecções graves sem resposta ao tratamento clinico , por exemplo.

 

13) Quem controla a Lista de Espera?

 O controle da Lista de Espera é realizado pelas Centrais de Transplante. As Centrais de Transplante dos diversos Estados estão integradas ao Sistema Nacional de Transplantes (SNT), o qual está submetido ao Ministério da Saúde.

 

14) De onde se originam as Córneas usadas nos Transplantes?

Como em todo Transplante, o tecido (no caso a córnea) origina-se de pessoas que faleceram e as respectivas famílias autorizaram a doação. Os Bancos de Olhos são instituições responsáveis pela retirada, transporte, avaliação, classificação, preservação, armazenamento e disponibilização dos tecidos oculares doados (ou seja, responsáveis por todas as etapas de processamento dos tecidos oculares doados).

Os tecidos oculares são retirados de acordo com técnica cirúrgica que não deixa vestígios. A doação não modifica a aparência do doador.

É importante a divulgação e explicação da importância da Doação das Córneas após a morte, pois apesar das campanhas de doação de órgãos, o índice de recusa familiar ainda é o fator preponderante para o número tão reduzido de doações e, conseqüentemente, aumento da fila de espera por órgãos.

A vantagem da córnea em relação aos outros órgãos transplantados é que é possível a captação até seis horas após a morte de um indivíduo. A remoção das córneas do doador cadáver não acarreta efeito estético indesejável no doador.

 

15) Existe algum controle sobre a qualidade das córneas doadas?

 Sim. Existe um controle rigoroso do Banco de Olhos da qualidade das córneas doadas para transplante, a fim de evitar a transmissão de doenças infecciosas e para assegurar a boa qualidade do tecido doado.

Os Bancos de Olhos cumprem “Normas Médicas Internacionais” e, no Brasil, “Normas Técnicas para o Funcionamento dos Bancos de Olhos” – da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA, Ministério da Saúde, que garantem o correto controle de qualidade com relação aos tecidos oculares doados.

 

16) Quem pode ser um doador de córnea?

 Qualquer pessoa que queira doar seus órgãos após a morte e ajudar outras pessoas que sofrem de problemas visuais. Não há qualquer restrição em relação a ter feito cirurgias oculares, ter glaucoma e etc.

Mesmo assim, os familiares do doador sempre são consultados e precisam autorizar a doação. Por este motivo, caso você deseje doar suas córneas, comunique isto à sua família para que saibam de sua vontade.

 

17) Qual a importância da doação de córneas?

 No Brasil, o número de Transplante de Córnea vem crescendo, mas ainda é insuficiente em relação ao número de pessoas que esperam por essa cirurgia. Algumas pessoas estão hoje praticamente cegas e após a cirurgia vão poder voltar a levar uma vida normal sem limitações. Inclusive há muitas crianças esperando na fila de espera nesse momento.

Recentemente foi publicado artigo cientifico na revista médica da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), no qual descrevemos os avanços realizados na área de Transplante de Córnea no Estado do Rio e no Brasil: Gustavo Bonfadini et al. Doação e fila de transplante de córnea no Estado do Rio de Janeiro; Revista Brasileira de Oftalmologia IN PRESS .

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18) Onde é feita a cirurgia?

A cirurgia de Transplante de Córnea é feita em centro cirúrgico de clínicas e hospitais, tanto públicos como privados que precisam estar credenciados e cadastrados no Sistema Nacional de Transplantes (SNT) e na Central de Transplantes para qual pertencem.

 

19) Quais os requisitos para o médico oftalmologista realizar transplante de córnea?

 O médico oftalmologista deve ter especialização documentada em Transplantes, ser cadastrado no Sistema Nacional de Transplantes e na Central de Transplantes do Estado em que atua.

Isto garante que a fila será respeitada e assegura ao paciente que seu médico é competente para indicar de forma precisa, realizar e acompanha-lo após a cirurgia.

 

20) Quais são os resultados alcançados com o transplante?

 No Instituto de Oftalmologia do Rio de Janeiro (IORJ) são utilizadas modernas técnicas de Transplantes de Córnea que permitem a redução no tempo de recuperação do paciente e melhoria nos índices de sucesso dos transplantes, possibilitando resgate da qualidade de vida do paciente.

“O objetivo do transplante não é somente o de ter uma córnea transparente, mas aliar isso a um paciente que vive melhor e mais feliz” afirma o oftalmologista Dr. Gustavo Bonfadini.

Lembre-se: Este artigo visa informar o público e não substitui avaliação por médico oftalmologista, que é o único profissional capacitado para realizar o diagnóstico preciso e indicar o tratamento mais adequado para cada caso. Portanto, não pratique a auto-medicação e procure sempre o seu médico

 

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Imagem Reportagem entrvista Gustavo sobre manual de transplante de córneaFaça Download do Manual.

 

Dr. Gustavo Bonfadini

Doutor em Oftalmologia e Ciências Visuais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), realizou especialização de 3 anos em Oftalmologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Residência Médica em Oftalmologia pela Secretaria Municipal de Saúde – RJ. É especialista em Cirurgia de Catarata e Transplante de Córnea pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Fez Post-doctoral Research Fellowship em Catarata, Córnea e Cirurgia Refrativa pela Johns Hopkins University – Estados Unidos. Chefe do Setor de Córnea e Cirurgia Refrativa do Instituto de Oftalmologia do Rio de Janeiro – IORJ, atua nas áreas clínica e cirúrgica da oftalmologia geral, transplante de córnea, síndrome do olho seco, ceratocone, distrofia de Fuchs, conjuntivite, cirurgia a laser, lentes intra-oculares, cristalino e catarata.


Lembre-se: O médico oftalmologista é o único profissional capacitado para realizar o diagnóstico preciso e indicar o tratamento mais adequado para cada caso. Portanto, não pratique a auto-medicação e procure sempre o seu médico.